Carolina Maria de Jesus em Quarto de Despejo: Diário de Uma Favelada

Carolina acorda impreterivelmente às cinco da manhã para buscar água na torneira comunitária. Este não se trata de um ritual e sim de uma necessidade, afinal, o dia não começa e nem termina sem ela.

Chega a ser monótono para o leitor, já que absolutamente todas as entradas do “Diário De Uma Favelada” começam exatamente da mesma maneira, com Carolina saindo de casa praticamente de madrugada, faça chuva ou faça sol, seja Natal, ano novo ou dia das mães, mas logo essa mesmice se traduz em angústia.

Publicado oficialmente em 1960, Quarto de Despejo é uma coletânea de memórias de Carolina Maria de Jesus, mãe solo de três filhos, catadora de papel, lavadeira e moradora do bairro Canindé, às margens do rio Tietê na capital paulista. O material foi organizado a partir de 1959 pelo jornalista Audálio Dantas, que inicialmente buscava traçar o perfil dos moradores das favelas de São Paulo, mas que encontrou em Carolina uma história única.

Ela se orgulha de ter estudado até a segunda série do ensino fundamental, e por isso cultivou por anos o hábito de ler e escrever todas as noites antes de dormir. Seus diários são marcados tanto por uma linguagem ocasionalmente rebuscada, o que alguns redatores atribuem ao fato de que Carolina se dedicava à leitura, quanto por erros ortográficos que trazem um aspecto puro e distinto à sua narrativa.

Carolina Maria de Jesus, mulher negra, escritora e de legado estratosférico.

De outras coisas, Carolina também expressa seu orgulho. Não entende como o cabelo da mulher negra pode ser considerado ruim, afinal, quando ela o arruma ele fica exatamente igual o dia inteiro, enquanto o cabelo das mulheres brancas se desfaz quando bate qualquer vento, segundo relato divertido da autora. Ela torce para voltar negra em outra vida, se é que reencarnações existem, e assim também podemos perceber que seu coração é aberto para diversas crenças e espiritualidades.

Os vizinhos da favela são personagens recorrentes nas entradas do diário. Carolina tem encontros problemáticos com eles, acredita ser vítima de mau olhado (e para isso resolve se benzer) e constantemente é criticada por deixar suas crianças “soltas por aí”. Apesar de receber doações de pessoas próximas, ela presencia maus tratos, agressões verbais e até mesmo físicas de moradores contra seus próprios filhos.

Carolina tem uma percepção muito lúcida e politizada do mundo ao redor. Ela sabe perfeitamente que o centro da cidade de São Paulo se assemelha a um jardim que os turistas sempre querem tirar fotos, e que a favela é como se fosse um quarto de despejo, de onde nada serve e tudo pode ser jogado fora, incluindo as pessoas. Apesar de Carolina ser uma mulher admirável, corajosa e independente, ela não vive uma vida nem remotamente fácil.

O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Carolina de Jesus

Quando observamos o ano de publicação da obra, não é por acaso que Quarto de Despejo foi “desencorajado” pelo governo brasileiro nos anos subsequentes, apesar de ter sido um absoluto sucesso de vendas. Sabemos do histórico de censura e repressão durante a ditadura militar que se instaurou no Brasil oficialmente através do golpe de 1964.

A fome é um dos elementos mais presentes nas entradas do diário. Ela nos conta que sente a dor de seus filhos, João José, José Carlos e Vera Eunice quando eles não têm o que comer, que “é horrível ter só ar dentro do estômago”. Dos registros mais marcantes de toda a narrativa, Carolina nos surpreende quando afirma que a cor da fome é amarela, pois é a cor da vida e da morte – no final das contas, dá no mesmo.

Carolina nos presenteia com reflexões brilhantes (e escandalosas para a época), como uma crítica muito dura à democracia, dizendo que esta não é nada mais do que um instrumento que contempla apenas a mesma classe de indivíduos e que sempre vai esquecer os pobres. Ela nos lembra que, no nosso país, a população pobre é a maioria, e ela se pergunta para onde correria a minoria abastada se a maioria um dia resolvesse se rebelar.

Da mesma forma que a autora compara a favela com um quarto de despejo, a América Latina é considerada por muitos, ainda de que forma informal, o “quintal” do mundo. Palco de golpes militares apoiados pelos Estados Unidos e revoluções sociais durante a Guerra Fria (que aqui atingiu altas temperaturas), o continente é marcado por dois dos processos mais traumáticos que qualquer sociedade pode sofrer: a colonização e a escravidão. Sanções, repressões, perdas e genocídios culturais e violências estruturais são traços compartilhados pela sociedade latino-americana.

Carolina é assertiva quando toca nessas questões. É mulher, é negra, é latino-americana, é mãe – cada característica se torna uma dificuldade a mais aos olhos da sociedade. E, infelizmente, ela não é a exceção mesmo depois de mais de cinquenta anos.

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